A Covid-19 já representa 93,7% das síndromes gripais atendidas nos prontos-socorros de hospitais privados de ponta, mostra pesquisa inédita da Anahp (Associação Nacional dos Hospitais Privados) com 21 instituições de todo o país.

Nove em cada dez hospitais consultados relatam aumento do número de casos de Covid-19 nas últimas duas semanas. Dos atendimentos feitos nos prontos-socorros, 4,5% têm gerado internação. Dos hospitalizados, pouco mais de um quarto (28%) precisa de terapia intensiva.

A alta de casos tem reflexo na taxa de ocupação dos hospitais. Em abril, segundo a pesquisa, estava em 77,5%. No fim de maio, atingiu 84%. A Anahp reúne 135 instituições, entre elas Albert Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz, todos em São Paulo.

“O momento é de atenção. Há um aumento claríssimo das internações, e os hospitais estão tendo que ampliar a destinação de leitos para Covid. Não há ainda uma situação preocupante de UTIs, mas, em relação às semanas anteriores, essa foi a de maior preocupação”, diz Antônio Britto, diretor-executivo da Anahp.

O crescimento de casos têm levado os hospitais a ampliar o número de leitos de isolamento, a remanejar procedimentos de pacientes com testes positivos para o coronavírus e até “pisar no freio” de cirurgias eletivas.

O Hospital Israelita Albert Einstein, por exemplo, voltou a reservar 114 leitos para a Covid, que já estavam desocupados com queda dos casos nos meses anteriores. “A gente aprendeu a ser flexível e ágil na reconfiguração das unidades de internação. Transforma em Covid, depois em não Covid conforme a necessidade”, diz Miguel Cendoroglo Neto, diretor-superintendente da instituição.

Na primeira onda, o hospital teve 186 pacientes internados com Covid. “Parecia impossível lidar com esses 186. Na segunda onda, a gente bateu em 305”. Nesta terça (7), o Einstein tinha 72 pacientes internados, desses 54 em apartamentos e 18 em UTIs e unidades semi-intensiva.

Segundo Cendoroglo, o saldo de leitos ainda é “positivo”, mas o hospital decidiu segurar um pouco alguns procedimentos cirúrgicos eletivos.

“[Em meses anteriores] Chegamos a ter dez pacientes internados com Covid. Como agora passamos dos 70, é de se esperar que haja um pouco de dificuldade de acomodação.”

No Hospital Sírio-Libanês, também houve uma readequação dos leitos que já tinham sido desativados para a Covid. Segundo o hospital, nesta terça (7), 43 pessoas estavam hospitalizadas com a doença, seis delas na UTI. Há duas semanas, no dia 24 de maio, eram 22 internados, quatro na UTI.

Na Rede de Hospitais São Camilo são 31 pacientes internados com Covid-19, contra oito no dia 15 de maio.

No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o maior impacto até agora tem sido no pronto-atendimento. Em quatro semanas, do início de maio até agora, dobrou o número de pessoas com sintomas respiratórios, de 160 para 320. A taxa de positividade dos testes para Covid passou de 30% para 60% nesse período.

Nesta quarta (8), havia 41 pacientes hospitalizados com Covid, dos quais 11 na UTI. No dia 8 de maio, eram cinco internados no total. O hospital tem 32 leitos de apartamento e 14 de UTI dedicados à Covid, mas pode ampliar o número conforme a demanda, segundo José Marcelo Oliveira, diretor-presidente do Oswaldo Cruz. A taxa média de ocupação atual é de 90%.

Os pacientes imunossuprimidos e os mais velhos são os grupos que têm apresentado um maior grau de gravidade. “Entre eles a gente sabe que a efetividade da vacina é menor”, afirma o infectologista Felipe Piastrelli, do serviço de controle de infecção hospitalar.

O Oswaldo Cruz tem registrado adiamentos de algumas cirurgias eletivas devido à confirmação da Covid nos pacientes. Até o início de maio, 0,5% dos pacientes assintomáticos que faziam teste de Covid antes de cirurgias agendadas tinham resultado positivo. Agora, a taxa pulou para 1,5%.

Para o gestor do Oswaldo Cruz, o momento é de atenção porque a curva de casos subiu muito rápido nas últimas quatro semanas. “E não estamos vendo platô ainda. Não sabemos em que momento da curva estamos. Ninguém sabe.”

A notícia alentadora é que, no geral, a situação dos internados está menos grave do que nas ondas anteriores, segundo Cendoroglo, do Einstein.

“O tempo médio de permanência no hospital caiu muito. Era pouco mais de dez dias em março de 2021, depois passou para sete dias no pico da ômicron, em janeiro, e agora está em quatro dias. Está muito próximo dos pacientes não Covid.”

Essa constatação está levando o hospital a revisar todas as internações e avaliar se elas realmente foram necessárias.

Metade dos pacientes internados nesta terça no Einstein tinha acima de 60 anos. Do total, 85% se autodeclararam vacinados contra a Covid com pelo menos uma dose, 13,9% disseram que não foram imunizados e 1,4% não tinha registro no prontuário. A idade média é de 52 anos, o que reforça a necessidade da quarta dose às pessoas acima de 50 anos.

Cendoroglo diz que, em geral, pacientes não graves de Covid são candidatos à internação quando estão muito prostrados e precisando de hidratação. “Por isso têm alta logo, precisam muito menos de oxigenoterapia.” Inflamações e infecções de garganta têm sido sintomas clássicos.

Segundo Vanessa Teich, superintendente de economia da saúde do Einstein, outros dados reforçam essa diminuição da gravidade. Em março de 2021, dos 750 internados no Einstein, 52% foram para UTI ou para semi-intensiva e quase 20% precisaram de ventilação mecânica. A taxa de mortalidade foi de 7,5%.


Em janeiro deste ano, das 720 internações, 28% foram para a UTI ou semi e 7% precisaram de intubação. E a taxa de mortalidade foi de 5%. Em abril e maio últimos, dos 228 internados, 28% foram para a UTI, 2% precisaram de internação. A taxa de mortalidade está em 0,4%.

Para o infectologista Icaro Boszczowski, do Oswaldo Cruz, a menor frequência de casos graves tem a ver com evolução natural da pandemia, à medida que as pessoas estão vacinadas e, ao mesmo tempo, expostas à doença natural.

“A tendência é que as próximas ondas sejam menos intensas não do ponto de vista do número de infectados, mas do nível de gravidade. Até que a Covid se torne uma doença endêmica, que vá ter períodos sazonais e internações dos mais vulneráveis, mas que não estresse tanto os sistemas de saúde.”

Autor: Folha de São Paulo

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