O menosprezo inicial do presidente Jair Bolsonaro à crise do coronavírus abriu um vácuo de liderança política que está sendo ocupado por outros atores, como ministros, prefeitos e governadores. A análise é de professores e cientistas políticos ouvidos pela Folha de S.Paulo.

Ao longo do mês, Bolsonaro usou termos como “fantasia” e “histeria” para se referir ao temor de uma disseminação massiva da doença, mesmo após a declaração de pandemia pela Organização Mundial da Saúde, no dia 11.

Também criticou medidas de governadores como João Doria (PSDB), em São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), no Rio, que restringiram a circulação da população como forma de conter o contágio.

“Não existe vácuo na política, alguém ocupa. Alguém vai fazer e naturalmente vai aparecer. E é o que deve acontecer mesmo. A Presidência tem a maior parte dos recursos, da atenção, das expectativas. Se não fizer, outros vão aparecer, sem a menor dúvida”, diz o professor de ciência política da USP Glauco Peres.
Para a cientista política Ariane Roder, professora de relações internacionais da UFRJ, Doria e Witzel, como possíveis presidenciáveis em 2022, tentam se apresentar no momento como “figuras políticas responsáveis”, em um contraste com a Presidência, embora “não concorram ainda” com o presidente.

“Algumas insistências que ele [Bolsonaro] tem, de achar teorias da conspiração, explicações fáceis, abrem espaço para que algumas lideranças se apoiem em uma movimentação mais técnica, que é o que dá mais segurança para a população em um momento como este. As pessoas precisam de informações científicas.”

Na sexta-feira (20), Doria chegou a criticar publicamente o desempenho de Bolsonaro na gestão da crise. “Estamos fazendo aquilo que ele não faz: liderar o processo, a luta contra o coronavírus, estabelecer informações claras, não minimizar.”

Witzel tomou a frente de medidas de restrição, chegando ao ponto de anunciar a suspensão da ponte aérea Rio-São Paulo, ainda que a administração desse sistema seja atribuição federal. Além disso, colocou os bombeiros para abordar banhistas que permaneciam em praias.


Doria também procurou se pronunciar com frequência em meio ao agravamento da crise, ao lado de profissionais da área da saúde.

Para a professora do programa de pós-graduação de ciência política da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Silvana Krause, os desdobramentos da crise do coronavírus podem ir até o ponto de fazer a relação entre os entes da federação ser rediscutida.


“Quem chega mesmo à população é o [governo] local. Mobilizar a máquina federal, por muitas razões, tende a ser muito mais lento.”

A calamidade provocada pelo coronavírus tirou, na visão dos analistas, Bolsonaro de sua cancha preferida, a do embate político, e o força a adotar um perfil mais gerencial, de articulação entre diversas frentes do governo. O mau desempenho nessa seara, simbolizado pela entrevista coletiva com ministros usando máscaras na última quarta-feira (18), tende a fragilizar mais sua imagem política.

“A falta de liderança é a maior crítica nestes dias. O que se tem é uma liderança negativa”, diz o professor emérito de ciência política da UnB (Universidade de Brasília) David Fleischer.

Discreto até então, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pouco afeito a declarações polêmicas, ascendeu na crise e recebeu elogios de políticos de diversas correntes pela forma como se comunica diante da emergência.

Já no ano passado, desde antes da crise sanitária, a atuação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a favor das reformas econômicas lhe rendeu comparações em Brasília com a de um primeiro-ministro, também devido à inação do Palácio do Planalto na área da articulação política.

Para Silvana Krause, em um sistema presidencialista como o brasileiro, o papel do Executivo ganha ainda maior importância, especialmente em uma circunstância em que a iniciativa do Estado é tão necessária, como a de uma calamidade.

“É uma janela de oportunidade para uma liderança mostrar a que veio e envolver a sociedade civil, a população.”

Silvana Krause também afirma que pode haver um efeito das comparações, por meio das mídias sociais, de como cada governante reage a uma situação extrema como a atual.

Na semana passada, viralizou vídeo que mostra declarações de líderes mundiais que falam em um desafio histórico a ser enfrentado, e afirmações de Bolsonaro subestimando a proliferação da moléstia.

A crise econômica que se aproxima, como consequência da paralisação forçada das empresas, também pode tirar do governo o seu principal trunfo, o do reformismo na economia. O próprio Ministério da Economia já faz previsões de um ano de estagnação no crescimento, embora a tendência seja de recessão. O empresariado esteve desde a posse entre os principais entusiastas do governo do militar reformado.

A corrosão da aprovação ao presidente foi simbolizado pelos panelaços promovidos contra o governo em grandes cidades durante a semana, em especial em bairros de classe média e alta no Rio e de São Paulo.

Para a professora Ariane Roder, diferentemente da maioria dos países, no Brasil a pandemia, além das crises sanitária e econômica, deve provocar também uma forte turbulência política.

“A crise política, essa sim, poderia ser evitada. Mas ao que parece ela vai vir também, tumultuando ainda mais o ambiente doméstico”, diz a professora.

Fonte: Midianews

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